A Arca dos Woehl
Márcio Cruz
Em Jaraguá do Sul (SC), o hectare de terra mais caro do PAÍS, um casal luta para salvar as últimas áreas remanescentes de mata atlântica e garantir a biodiversidade e o futuro das próximas gerações

Elza Woehl alerta adolescentes sobre a importância de preservar o meio ambiente. "Em 30 anos, pode não haver água na região".
Olhando do ponto de vista de um estranho, a rotina pesada desta paranaense radicada em Guaramirim (SC) não é muito diferente da de qualquer outra mulher bem-sucedida profissionalmente à beira dos 50 anos. De tênis esportivo, camiseta branca e calças jeans, ela "dorme com as galinhas e acorda com o galo", brinca. Para manter a forma, ela se levanta cedo para praticar corrida ("Mas não é todo dia"). Quando é noite de lua cheia, acorda ainda mais cedo para aproveitar a claridade e aproveitar melhor o tempo. De hábitos simples, aparenta ter menos idade do que declara (ela tem 49), não traz sinal de maquiagem no rosto e suas unhas, curtas, não estão feitas. Como único sinal de vaidade, uma jóia no pescoço: um colar dourado com um pingente na forma de um sapo sorridente.
Mas é menos na aparência e sim no discurso e na biografia que a vida de Elza e seu marido, o pesquisador Germano Woehl Jr., 47 anos, toma uma direção oposta a da maioria dos casais tradicionais. Casados há 25 anos, desde 1998 eles passam a maior parte do tempo em cidades diferentes, distantes 670 km uma da outra - ela em Guaramirim, ele em São José dos Campos (SP). Filha de uma família de agricultores e neta de imigrantes japoneses, aos 21 anos ela conheceu Germano, estudante de física da Universidade Estadual de Londrina (PR). Descendente de austríacos e egresso da cidade de Itaiópolis, no Planalto de Santa Catarina, ele se encontrava a caminho de concretizar um sonho de adolescência: tornar-se cientista. Casaram-se três anos depois. O casal ainda viveu em São Carlos (SP), onde Germano defendeu seu mestrado, e em São José dos Campos, onde hoje ele ganha a vida como pesquisador do departamento de Fotônica do Instituto de Estudos Avançados do Centro Técnico Aeroespacial, debruçado na análise do comportamento do átomo de cálcio congelado em raio laser.
Assim como Germano, Elza cresceu observando o comportamento predatório dos agricultores. "Eu via meu pai cortando palmito, mas não sabia que era errado", ela lembra. Durante a infância e adolescência de Germano, sua cidade natal ainda mantinha 70% a 80% da mata nativa preservada. "Hoje não chega a 20%", lamenta ele, com voz suave, em conversa telefônica na tarde anterior à minha viagem para Jaraguá do Sul. A velocidade com que as áreas remanescentes de mata atlântica se transformavam em pastos, e mais tarde, em campos para a plantação de soja e pínus para a indústria de papel e celulose, gerou no casal o instinto de preservação, um alerta natural a qualquer espécie, mas que parece estar adormecida no ser humano.
Você lê esta matéria na íntegra na edição 21 da Rolling Stone Brasil, junho/2008
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