A rainha do pop continua reinventando a si mesma e (ainda) usa sua habilidade para quebrar tabus para defender suas causas e continuar uma busca, pública, pelo seu verdadeiro eu. Até quando?
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- TEXTO ORIGINALMENTE PUBLICADO NA REVISTA VANITY FAIR. TRADUÇÃO: ANA BAN
O mundo é uma série de aposentos dispostos como círculos concêntricos ou cômodos dentro de cômodos, unidos por pátios e antecâmaras. No centro de todos esses cômodos, Madonna está sozinha, vestida de branco, sonhando com a África. Para chegar até ela, é necessário esperar por um sinal. Se você tiver o coração puro, começa a se deslocar na direção da rainha do pop e a se movimentar com rapidez. Em um instante está em Connecticut, imaginando se vai nevar; no momento seguinte, é acometido por uma força maior. Se vê, então, na estrada, passando em alta velocidade por cidades adormecidas, aproximando-se cada vez mais do centro, ao qual você chega com destreza e humildade, à maneira de um peregrino. E, como um peregrino, parte antes da primeira luz. Como um peregrino, tira os sapatos - para passar pela segurança no aeroporto. Como um peregrino, lê textos sagrados: perfis e resenhas, os primeiros, publicados no início da década de 1980, e os mais recentes, gerados há apenas um segundo, e isso constitui uma espécie de recorde, a boa notícia, o Evangelho de Madonna. Agrupados, esses manifestos representam uma crônica destes tempos - cada um deles é diferente, mas conta a mesma história, já tão estabelecida e arquetípica que beira o folclore: a menina dos subúrbios de Detroit (que aqui está valendo para representar qualquer lugar); os primeiros anos no Éden, as lembranças que ela descreve como "granuladas e lindas" (quando sua mãe era jovem e viva); a tragédia, a ferida que nunca se fecha (a morte da progenitora acometida por um câncer); e os dias vazios amaldiçoados por sonhos atormentados. "Você sente uma noção de perda e existe uma noção de abandono", Madonna explica. "As crianças sempre acham que fizeram alguma coisa errada quando os pais desaparecem." E o drama real continua com o segundo casamento do pai, a madrasta, o tédio; ela era a menina mais velha e, ainda criança, foi forçada a exercer serviços de adulto. Permanecem, dessa época, os segredos e desejos, as lembranças de sua vida solitária na frente do espelho. No ensino médio, Madonna era bonita, mas única. "Não combinava com o grupo dos populares", recorda. "Não era hippie nem drogada, então acabei sendo a esquisitona da escola. Eu me interessava por balé clássico e música. Era uma daquelas pessoas com quem os outros são maus. Quando isso aconteceu, em vez de me transformar em um capacho, resolvi dar ênfase as minhas diferenças, parei de raspar as pernas, tinha pêlos compridos embaixo dos braços. Simplesmente me recusava a usar maquiagem ou me encaixar no ideal do que era uma menina bonita convencional. Então, fui mais torturada e isso validou minha superioridade, me ajudou a sobreviver e a decidir dar o fora." Ela encontrou refúgio nas aulas de dança e foi para a Universidade de Michigan, mas só ficou um ano lá, porque logo se mudou para Nova York.
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Como estamos falando de mitologia, um curto período de dificuldades se seguiu pela ascensão rápida ao estrelato. Quando mesmo foi isso, 1982, 1984? O nascimento do videoclipe? O sucesso de "Borderline"? E assim, sem mais nem menos, todas as meninas queriam ser Madonna Ciccone, com magnificência de vagabunda, luvas de renda sem os dedos, barriga de fora e penduricalhos. Eis aqui minha citação preferida - trata-se de um editor da Billboard falando com Jay Cocks, em 1985, para a revista Time: "Cyndi Lauper vai ficar entre nós durante muito tempo. Madonna estará fora do mercado daqui a seis meses".
Senti a presença de Madonna assim que aterrissei em LAX (o aeroporto de Los Angeles). Parecia que ela tinha estado ali um momento antes e, de fato, enquanto esperava minha bagagem, dei uma olhada em um exemplar do jornal New York Post e me deparei com uma foto tirada no dia anterior de Madonna com David, seu filho, no colo. As câmeras pareciam estar a um palmo de seu rosto. "Os paparazzi andam fora de controle", ela comenta mais tarde. "Faz um bom tempo que não venho a Los Angeles e não assisto a televisão nem aqui nem na Inglaterra. Me disseram que agora existe um programa em que os paparazzi são as estrelas. É verdade? Que eles se filmam uns aos outros? E isso lhes dá ainda mais gás. Sempre achei que essa gente se mantinha à distância... é o que acontece na Inglaterra, porque lá é proibido fotografar crianças. Mas não aqui. Eles chegam bem pertinho e não se importam se assustam os filhos da gente ou não. Ser famosa mudou muito, porque agora existem tantas mídias - entre revistas, programas de TV e a internet - perseguindo a gente. Nós criamos esse monstro."
Você lê esta matéria na íntegra na edição 26, novembro/2008
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