Tá Rindo do Quê?
Humoristas brasileiros usam a cara-de-pau como arma, satirizam a vida real e se apóiam em fórmulas clássicas que garantem a boa piada. A TV vive um novo escracho, mas continua a reverenciar os grandes mestres
Foto: MAURÍCIO NAHAS/GERSON NASCIMENTO

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Quem necessita de personagens como o craque de futebol Coalhada, criado pelo genial Chico Anysio, quando uma garota revelada no Big Brother, travestida de repórter e vestida com o mínimo de roupa possível, pergunta diretamente ao craque bom-moço da Seleção Brasileira, Kaká, carola de carteirinha que contou ao mundo que casou virgem (e não estava fazendo piada), se ele está recuperando o tempo perdido com a mulher - e ainda por cima arranca uma sincera e animadíssima resposta positiva?
O homem contemporâneo pensa diferente desde a popularização da internet, a partir dos anos de 1990, e do choque de realidade que a cultura pop levou quando a Endemol criou o Big Brother - a primeira edição foi ao ar em 1999, na Holanda; o reality show chegou aos Estados Unidos em 2000; ao Brasil, em 2002. Agora que qualquer mané pode ser famoso na TV e todo mundo é convidado a interferir e a interagir com a notícia e a indústria do entretenimento pela rede mundial de computadores, a motivação para sorrir e fazer graça também ganhou outros parâmetros. Os norte-americanos falam em novo constrangimento ao rotularem um grupo de humoristas ianques que diverte sem pudor, muito menos intermediários. Mais refinada, a Tina Fey, que imita e superexpõe Sarah Palin na presença da própria ex-vice candidata republicana à presidência, é um bom exemplo. Tosco, o humor nerd do diretor Judd Apatow também se sobressai: filmes sem piada como O Virgem de 40 Anos (2005), Ligeiramente Grávidos (2007) e Superbad (2007) têm um efeito devastador se encarados como um retrato dos jovens que integram a média da sociedade norte-americana. São constrangedoramente conservadores, machistas e insipientes.
Inserido no contexto global, o humor brasileiro está experimentando os mesmos efeitos. Mas na terra da malemolência e da compulsão para o desregramento (este é o país em que vez por outra até "a lei não pega") é mais apropriado identificar como um novo escracho essa maneira de divertir ridicularizando, que tem o próprio público-alvo como um dos alvos. No momento em que o mundo das celebridades ocupa um espaço assustadoramente grande e a própria noção dequem é célebre mudou - o Big Brother colocou o voyerismo político opressor de Orwell e o idealismo exibicionista pop de Warhol sob um mesmo teto -, os humoristas nacionais experimentam um radicalismo inédito na execução de suas críticas bem-humoradas (ou nem tão engraçadas, se for o caso).
A cara-de-pau dos integrantes de programas como Pânico na TV e CQC ao interpelarem "quem é" só tem antecedentes na TV brasileira no distante princípio dos anos 80, quando Marcelo Tas se notabilizou como o repórter Ernesto Varela. Quando se trata de abordar "quem acha que é" e sua predisposição de pagar um mico desde que seja em rede nacional, o conceito de que vergonha alheia diverte chega ao seu ápice. É aqui que uma figura como Christian Pior (que, sinal dos novos tempos, não diverte por ser gay, mas por ser escrachado) aproveita para falar mal de pobre, meio personagem, é verdade, mas 100% sincero ao zoar omundo real. Se as pseudo-celebridades, os alvos prediletos do novo escracho, acreditam no triste clichê do "falem bem ou falem mal, mas falem de mim", como não tirar sarro delas? É quase um contrato velado...
Você lê esta matéria na íntegra na edição 27, dezembro/2008
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