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Home > Edição 29 > 06 de fevereiro de 2009, 15h12

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A Vida é um Jogo

Por Pablo Miyazawa


Expert em um game proibido, seleção brasileira de videogames vive surreal rotina de rockstars – e sabe que o sucesso é efêmero


Foto: Ronaldo Franco
A Vida é um Jogo
(A partir da esq.) A formação "segundo semestre de 2008" do Mibr: Raphael, Lincoln, Renato, Thiago e Bruno - na vida real - ou "Cogu", "Fnx", "Nak", "Btt" e "Bit" - dentro do game Counter-Strike
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Com a precisão de um cirurgião cardíaco - e com a habilidade de quem realiza a tarefa para viver - "Cogu" manipula um rifle AWP para derrubar adversários à distância. A cobertura das proezas é feita por "Btt" e "Nak", agentes polivalentes que raramente caem em batalha. A estratégia é organizada pelo capitão "Bit", que ordena avanços e recuos com frases curtas e diretas. Seguindo uma rota alternativa está "Fnx", gênio indomável que não raro decide disputas praticamente sozinho.

Posicionados lado a lado diante de uma parafernália de última geração, uniformizados e sob a alcunha "Mibr", os jovens soldados se espalham de modo organizado pelo mal-ajambrado ambiente do videogame Counter-Strike. Os adversários no conflito, o derradeiro de uma maratona de seis que enfrentaram nas últimas oito horas, são cinco poloneses de semblante psicopata e atitude agressiva. Sob holofotes de luzes incandescentes, os brasileiros suam. A partida, narrada em alemão nos alto-falantes, ganha contornos dramáticos. Cada round vencido pelos europeus é comemorado com urros e dedos apontados. Sob clima pesado, a derrota por seis pontos de diferença é quase inevitável. Pendurado no monitor central do front brasileiro, apenas o estandarte verde-e-amarelo permanece intacto após a tempestade de tiros.

Sem esconder a decepção, os integrantes do Mibr se consolam com olhares silenciosos. Já com a face menos avermelhada, Cogu se dirige a mim pela primeira vez naquele dia:
"Nós vamos pra balada hoje, não?"

Nas horas seguintes, a caminho de uma boate só para estudantes na zona central de Colônia, Alemanha, ficava evidente o quanto os rapazes do Mibr, mais bem-sucedido time profissional de games do Brasil, se afastam sem esforço dos estereótipos estéticos e sociais comuns aos praticantes de jogos eletrônicos: frutos da classe média paulistana entre 18 e 23 anos, eles apreciam roupas de grife e acessórios caros - proporcionados pelos prêmios em dinheiro que ganham nos campeonatos -, vida noturna e álcool sem muita moderação. Fora do jogo, continuam a se chamar pelos apelidos de suas personas virtuais, mas esse não é o único elemento que extraem da experiência in game: o estilo agressivo/sorrateiro, praxe de uma partida de Counter-Strike, é usado como tática na abordagem ao sexo oposto. "Somos da seleção brasileira de futebol indoor", um deles mente, em inglês aprendido na vida na estrada, tentando estabelecer contato com uma alemã de seios fartos - tal tática seria repetida à exaustão ao longo da noite. Em oposição à atuação no virtual, o ataque em grupo aqui parece funcionar. Ao longo da noite, os copos descem fácil e as "missões" são cumpridas. No cambaleante - porém energizado - retorno ao hotel, já na alta madrugada, o grupo se diverte contabilizando os pontos. A derrota de horas antes já parecia parte do passado. Era quase possível acreditar que aqueles jovens risonhos, embriagados e usando camisetas Armani eram mesmo craques da bola, e não dedicados e bem-sucedidos profissionais do videogame.

Torneios de Counter-Strike como os tantos em que o Mibr ("Made in Brazil") representa a bandeira brasileira não oferecem espaço para o acaso ou a sorte. Quase sempre, o time mais bem preparado vence, normalmente por um placar elástico. No jogo para computador, disputado por dois grupos de cinco, cada função é bem definida e, dependendo do cenário onde se realiza o conflito, a estratégia é variável. Em uma das metades da partida, agindo como terroristas, o objetivo é implantar uma bomba em menos de dois minutos. Os contraterroristas, por outro lado, precisam dar cabo dos adversários e evitar que tudo vá pelos ares. Seja em que lado estiverem, os gamers brasileiros sabem bem o que fazer com os equipamentos - mouses e teclados - dispostos ao alcance das mãos. Criado no Rio de Janeiro e batizado há mais de seis anos, o Mibr faz hoje parte do seleto grupo de sete melhores equipes do planeta e é sempre considerado favorito em competições internacionais.

Você lê esta matéria na íntegra na edição 29, fevereiro/2009


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