Patrimônio Psicodélico
Por Maurício Monteiro Filho Ilustração Índio San
A luta dos cultos da ayahuasca, o popular Santo Daime, para tornar o chá, seus rituais e crenças patrimônios imateriais da cultura brasileira
Foto: Ilustração Índio San

| Total de fotos: 6 | ||
|
|
||
| Veja a Galeria Completa |
Cada avanço em direção à igreja, um pouco mais adiante, nos botava em compasso com um número crescente de brasileiros - e cada vez mais estrangeiros -, com Burroughs e depois Ginsberg, com padrinhos seguidores do Padrinho Supremo, com a melodia das portas da percepção se abrindo aos altares da alma. Seguíamos os passos de linhagens de xamãs e pajés que começaram a escrever essa história milhares de anos atrás em cada um dos países cobertos pela Floresta Amazônica, onde crescem lado a lado o cipó Banisteriopsis caapi e o arbusto Psychotria viridis. A bebida resultante do cozimento das duas plantas juntas, em rituais mais ou menos artesanais e peculiares a cada região, resulta num líquido de cor terrosa e gosto amargo chamado ayahuasca. No Brasil, o chá se notabilizou por seu uso religioso como sacramento em igrejas ou irmandades. Agora, os usuários do chá querem transformar os rituais, o chá e a cultura em torno do consumo religioso em patrimônio cultural imaterial do Brasil.
Pisar o solo acreano em busca dos porquês deste tombamento cultural significa também fincar o pé nos estratos mais profundos das tradições ayahuasqueiras. O estado é o berço de ritos ancestrais do chá. Não muito distante de onde estamos, nos seringais da cidade de Brasiléia, o maranhense Raimundo Irineu Serra recebeu as visões que incorporariam uma doutrina cristã a rituais indígenas imemoriais e transformariam a ayahuasca em Santo Daime. Apesar das diversas denominações assumidas pela ayahuasca no país, todas as vertentes religiosas que empregam o chá em seus cultos reconhecem o Irineu Serra, ou Mestre Irineu, como o fundador da primeira corrente brasileira. A própria história de como ele - nascido num 15 de dezembro, como Chico Mendes - teve seu contato inaugural com o Daime, um verdadeiro quebra-cabeça de tradição oral entrecortada, já é um dos legados culturais da ayahuasca no país. Relatos das primeiras experiências de Mestre Irineu com as plantas de poder envolvem gritar pelo demônio - e receber visões de cruzes em retorno -, e luas cheias habitadas por mulheres de nome Clara. Hoje, nesta noite de lua cheia, a poucos quilômetros dali, é minha vez de ter a miração, como é chamada a resultante na consciência da ação do chá. Fala-se em estar preparado ou em ser merecedor para recebê-la. Não sei se sou qualquer uma das duas coisas, mas é certo que o Acre e o poder das florestas começavam a confirmar, em mim, sua reputação.
Você lê esta matéria na íntegra na edição 29, fevereiro/2009
COMENTÁRIOS