Batidas Orquestradas
Por Leonardo Dias Pereira
Em parceria inusitada, maestro e DJ provam que o erudito e a eletrônica podem funcionar bem juntos
Foto: FOTO NINO ANDRES

Anderson Noise (à frente) e João Carlos Martins (ao fundo, à direita), em ação na Sala São Paulo: novos concertos já
estão marcados
Intitulado João Carlos Martins e Anderson Noise in Concert, o espetáculo teve como embrião um simples encontro promovido por uma revista nacional, no fim do ano passado, no qual o DJ mineiro foi convidado para eleger o seu maestro preferido. "Quando partiu esse convite, o primeiro nome que me veio à cabeça foi o dele. E no dia desse encontro, inclusive, levei uma outra revista na qual o tinha citado como um dos meus preferidos e o João fi cou louco de saber que eu o conhecia. Tanto que o encontro, que era para ter apenas 30 minutos, evoluiu para um almoço", explica. "Percebi que ele tinha um enorme talento e cravei: no dia 9 de maio, vamos fazer um concerto juntos na Sala São Paulo", diz o maestro João Carlos.
Para não ficar no blefe, a dupla passou a se encontrar constantemente para formatar a tão difícil tarefa de unir estilos distintos. Conciliar suas agendas foi uma tarefa complicada, no início. "Ele é um cara da noite, vai dormir sempre lá pelas 7h, enquanto eu me levanto mais ou menos nesse horário. Então sempre nos encontrávamos num horário razoável para ambos", continua o maestro. Mas o maior obstáculo, aquele que parecia intransponível, seria coordenar o compasso da orquestra com os beats lançados por Anderson Noise. "Fincar a música foi o mais complicado. A eletrônica é sempre 4 por 4. Já a erudita tem vários compassos num tema só. A variação de batidas por minuto foi outro problema . Tive que fazer várias modificações nesse tempo", diz ele. Para solucionar essa questão, o DJ, auxiliado por seu engenheiro de som, teve que inventar um "click" (um sistema que marca o tempo das batidas) para cada um dos temas escolhidos pela dupla (dentre eles: O Grande Portão de Kiev, de Modest Mussorgsky, Trenzinho Caipira, de Heitor Villa-Lobos, e Ária da Suíte Orquestral n° 03, de Bach).
Depois de escolhidos os temas, o próximo passo foi levar a novidade aos músicos da orquestra. "Fizemos apenas cinco ensaios", diz o maestro, que continua: "Dois deles foram com a Bachiana Jovem, primeiro pra testar as músicas e aparar algumas arestas. E o restante com a Bachiana Filarmônica". Apesar do pouco tempo de ensaio, a competência dos músicos foi fundamental para a boa execução no dia do tão aguardado concerto. "Dá pra dizer que marcamos dois gols de placa: um por levantar o interesse de milhares de jovens pela música clássica, e outro por levar a música eletrônica para o mundo erudito", entusiasma-se o maestro. A parceria foi tão bem-sucedida que um novo concerto está programado para o fim de julho - que pode ocorrer no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, ou na Praia do Gonzaga, em Santos (SP) - com a possibilidade de ser aberto ao público. "Estamos trabalhando ainda na produção de um DVD e também de um disco com o concerto para serem lançados no fim do ano", conta Noise.
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