Produto da Fé
Por Paulo Terron
Sempre cercada por pequenas multidões, Claudia Leitte vivencia um momento de intensas mudanças profissionais que devem definir sua posição dentro do disputado universo da música popular brasileira
Foto: FOTOS DANIEL KLAJMIC - STYLING: BÁRBARA CHIRÉ E CAIO GARRO. BELEZA: ELIEZER LOPES

Claudia Leitte: produto da fé
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ASSISTA AO VÍDEO com o making of da sessão de fotos com Claudia Leitte.
Minutos antes, Claudia se apresentou para cerca de 60 mil pessoas no Festival de Verão de Salvador, talvez o mais importante evento pré-Carnaval da Bahia. E não foi só isso, a cabeça dela anda cheia de mudanças que poderiam ser preocupantes: Salvador viu a estreia oficial do show Sette, com repertório, figurino e cenário novos. O próximo disco - o primeiro da carreira solo dela a ser gravado em estúdio, só com canções inéditas - está em pré-produção, dentro de uma nova gravadora (a Sony Music). E, não menos importante, no dia seguinte ela receberia 300 convidados para o aniversário de 1 ano do filho, Davi, fruto do casamento com o administrador de empresas Márcio Pedreira (a união do casal completa três anos no mês que vem).
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Dias antes, no hotel Emiliano, em São Paulo, é possível notar como a cantora consegue sobreviver a um mundo que exige tanto dela. Antes que ela desça para o lobby, uma de suas assessoras começa a planejar mentalmente a situação: "Você se importa se ela se sentar no canto? Se alguém a vir aqui, tudo acaba. Está vendo aquelas duas ali?", aponta para duas garotas comportadamente sentadas a duas mesas de distância. "Se forem fãs, já era." O sofá é preparado cuidadosamente, com direito a afofada nas almofadas, mas Claudia só aparece meia hora depois. Sorridente, com Davi no colo e mais meia dúzia de pessoas a seu redor, ela parece flutuar pelo corredor. Mesmo com tanta gente circulando no ambiente, é impossível não notar quem é o centro das atenções. Claudia distribui cumprimentos simpáticos a todo mundo em seu caminho, sejam eles conhecidos ou não, e se apressa em explicar a situação toda. "Quanta gente, né? Juro que não é sempre assim! Desculpe a demora, eu estava fazendo a última prova do figurino novo do meu novo show."
CONCORRA a uma camiseta autografada por Claudia Leitte.
Já sentada (sem notar as almofadas afofadas e sem ser notada pelas não fãs), vê a atenção ser transferida para o filho. Não sem motivo: Davi parece ter saído direto de um desenho animado, com os olhos claros e brilhantes e cabelos loiros cacheados dignos de comercial de TV - e que também se comporta como um anjo, sem chorar ou pedir atenção. Antes mesmo que a conversa se inicie, é decidido que um quarto do hotel seria um ambiente mais tranquilo (mantendo em mente que a tranquilidade de uma estrela pop é um conceito que talvez não se aplique ao cidadão comum). A suíte está tão cheia que o ar-condicionado, não projetado para uma concentração tão grande de pessoas, não dá conta do recado. São pelo menos 20 pessoas, entre assessores e assistentes, a equipe que produz um documentário sobre Claudia e o time que momentos mais tarde produziria as fotos que ilustram esta edição ("o importante é que a artista esteja confortável, e ela está", reforça uma assessora). Todo mundo reclama do calor. Menos Claudia Leitte, que se senta calmamente no sofá, descalça, sorridente, parecendo extremamente confortável em seu vestido multicolorido e inabalada pela festiva confusão à sua volta. Talvez tenha a ver com o modo caótico como ela veio ao mundo, 29 anos atrás. Seus pais, o carioca Cláudio Inácio e a baiana Ilna Leite, conheceram-se ao estilo hippie. Ele estava em Salvador a trabalho e, depois de muito flerte, conseguiu que ela aceitasse uma carona cheia de segundas intenções. "Minha mãe foi contrariada, no banco de trás, com minha tia na frente", conta Claudia. "Depois eles ficaram se correspondendo durante oito meses, por carta, até que ele finalmente - sabendo que minha mãe era pura, casta e de família - a pediu em noivado." O padrão de cortejo por escrito se repetiria décadas depois, quando Claudia se reencontrou com Márcio, paixão de infância e futuro marido, e os dois passariam os primeiros dias trocando e-mails amorosos e mensagens de texto via celular.
O nascimento de Claudia Cristina Inácio Leite, em 10 de julho de 1980, foi digno de um evento de respeito. Dona Ilna não queria que a filha nascesse em São Paulo, onde morava, e convenceu o marido a se mudar para Salvador. Durante uma passagem pelo Rio de Janeiro, 15 dias antes do previsto para o parto, veio a surpresa: a bolsa rompeu e o trabalho de parto começou. A caminho de São Gonçalo, onde um primo obstetra ajudaria no nascimento, o carro foi parado pela polícia. Cláudio explicou a situação aos oficiais e ganhou mais tranquilidade para o trajeto. "Colocaram dois batedores para nos escoltar!", lembra Ilna. Foi o primeiro dia de estrela de Claudia Leitte, com direito a escolta policial.
Coincidência ou não, a infância da artista foi cheia de sinais do que viria pela frente. "Ela adorava tirar tudo o que estivesse no centro da mesa e transformar aquilo num palco", diz a mãe, que fisicamente lembra bastante a cantora (e, aos 51 anos, facilmente se passaria por uma irmã mais velha). "Eu ficava olhando, escondida, e via ela viajar naquilo. Ela terminava e agradecia, como se estivesse vendo as pessoas ali [aplaudindo]." Quando participava das brincadeiras do irmão, puxava para o lado de líder empresarial. "Se a brincadeira fosse de banco, ela era sempre a gerente!" Ao entardecer, Claudia se vestia e sentava na janela da frente da casa e cantava, com um objetivo fixo - o vizinho da frente era o compositor Oscar da Penha, o Batatinha, e a garota tinha esperança de que ele a levasse para a televisão. "Ela sentava lá e cantava, dizia que estava pronta", conta Ilna, rindo.
Horas antes do show de Salvador, Claudia Leitte está sentada no camarim de sua casa, no condomínio Alphaville, um ambiente branco mas enfeitado com diversos bonecos e pelúcias de vacas. Ela tenta poupar a voz (além de tudo está resfriada, sofrendo com febre), mas não consegue conter a empolgação. "Vou cantar com Akon!", diz. "Ele que me chamou!" Ela está cercada pelas câmeras da equipe do documentário (a ser lançado em DVD no segundo semestre), mas parece nem notá-las. Já se acostumou. Enquanto retoca as unhas e os cabelos, conversa com os outros presentes no ambiente - para desespero da fonoaudióloga, que tenta fazer com que Claudia inicie seu aquecimento vocal. "Esta casa vive cheia de sapos, porque as portas ficam abertas", constata alguém. Mais tarde, a academia da casa seria invadida por coelhos enquanto o marido da cantora estava na esteira.
Você lê esta matéria na íntegra na edição 41, fevereiro/2010, nas bancas a partir do dia 10
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