Das passarelas ao asfalto
Por Anna Virginia Balloussier
Cavalera trocou o espaço fechado da Bienal pelas vias do Minhocão, em desfile neste domingo, 21
Foto: Lucas Landau

A Cavalera trocou a Bienal do Ibirapuera pelo Minhocão
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Enquanto, na São Paulo Fashion Week (que, após seis dias de programação, termina nesta segunda, 22), estilistas deslancham seus desfiles conceituais, há quem aposte no ceticismo como o item que tão cedo não sai de moda. São muitos os vestidos que deixam meninas parecidas ora com bolo de noiva, ora com quadros de René Magritte. E a pulga atrás da orelha não dá trégua: "Pelo amor de Deus, quem vai usar isso?".
Dessa pergunta a Cavalera não tinha como se desviar. Justamente sob a bandeira do streetwear (estilo de rua), há 14 anos, nascia a grife, parceria entre o então deputado estadual pelo PSDB Alberto Hiar, o "Turco Loco", e o baterista do Sepultura, Igor Cavalera (hoje fora da empresa e da banda). Não tinha jeito. Era preciso provar que asfalto também é plataforma da moda - e em doses literais.
Saem as salas do Pavilhão da Bienal, onde os desfiles geralmente acontecem. No lugar, entra o Minhocão - bem menos conhecido pelo nome formal, elevado Costa e Silva. Se há quem insista em dizer que as ruas não vão até a moda, Hiar, dono da marca, e os estilistas Igor de Barros e Fabiano Grassi decidiram levar a moda até o asfalto. Carrinhos estilo "campo de golfe" transportaram convidados até o topo do elevado, onde a Cavalera tirou uma onda sob o tema "São Paulo É Minha Praia".
O começo da tarde de domingo, 21, estava estranhamente ensolarado para o primeiro dia de inverno. Cadeirinhas de praia vermelhas se espalharam por mais de 50 metros, enquanto quatro carros, com caixas de som acopladas, foram posicionados estrategicamente ao longo do Minhocão - dentro deles, alto-falantes bombaram o som amplificado, com faixas que iam desde o rap dos Racionais MC's até o punk dos Inocentes. Os automóveis vinham nas cores vermelho, amarelo e verde. Não deixou de soar como lembrete de uma cidade sempre às voltas o direito de ir, vir ou empacar no meio do tráfego. Só acreditamos no semáforo, certo?
Moradores fizeram de camarote sacadas e marquises dos prédios da redondeza - nas janelas, aliás, via-se toda sorte de símbolos da mais miscigenada São Paulo. Bandeiras de vários times enfeitavam edifícios de tintura descascada. Em uma casa, o flagra da mesa de café da manhã - com uma latinha de cerveja pousada em cima da toalha encardida.
Além dos 45 modelos recrutados para mostrar o desfile-reverência à capital paulista, 15 figurantes zanzaram de uma ponta a outra da passarela de asfalto. Entre a trupe urbana, ciclistas, patinadores (o modelo retrô de quatro rodinhas), gêmeos (duas garotinhas e irmãos carregando bola de futebol e bandeira), skatistas, músicos, um bebê no colo da mãe (que trazia mamadeira no bolso) e, no último minuto, o tiozinho que, com pinta de figurante de Easy Rider, atravessou o espaço com sua moto.
Algumas roupas traziam estampa com céu azul cheio de nuvenzinhas brancas - "o céu que a gente nunca vê", explicou Igor de Barros, que também assinou a coleção de outra marca na SPFW, a V.Rom. A cor amarela, recorrente nas peças, veio para representar tom bastante familiar aos paulistas. "É sinalização. É uniforme. Uniforme de quem trabalha na cidade, na grande metrópole que a gente ama", Hiar babou o ovo. À reportagem do site da Rolling Stone Brasil, o dono da grife ainda elegeria um lema da coleção, que nada por acaso está impresso na flâmula da cidade: "Não sou conduzido, conduzo".
Em edições passadas, a grife desfilou às margens do rio Tietê, no Museu do Ipiranga e no Autódromo de Interlagos. Dessa vez, a escolha do Minhocão caiu como uma luva - de borracha ou de seda, do trabalhador ou da madame - para contextualizar o tema da coleção. "Ele [o elevado] é amado e odiado. Foi construído para desafogar o trânsito e nem todos ficaram felizes com o resultado. Mas também não tinham escolha", disse Hiar.
E o Minhocão, de fato, foi isca perfeita para a pescaria de tipos urbanos. Entre as bordas da construção e a grade que isolava os convidados, por exemplo, estava Nilton Martins - no cartão de visitas, "sócio de uma empresa de empreendimento e vocalista da Cyklone".
Naquele domingo em particular, Martins não era exatamente o que poderíamos chamar de garoto propaganda da badalada marca. Com tênis desgastado, calça quadriculada e moletom, o pedestre passava por ali meio que por acaso. Mas disse estar atento ao estilo da Cavalera. "No palco, a gente usa uma bota bem de roqueiro, camisas transparentes. E tem a roupa das nossas duas dançarinas sadomasoquistas, que a gente põe na faixa 'Trash Movie'", explicou o espectador fora de série. Mas nunca de moda.
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